Sexualidade infantil: Reflexões

por Bill Paris

Recebemos respostas para meu artigo “O Culto da Infância e a Repressão da Sexualidade Infantil”. A maioria das respostas foi positiva e algumas negativas ou, embora apoiassem nossas questões, temeram que nossa abordagem franca nos trouxesse problemas legais. Tentarei resumir algumas dessas respostas, responder a algumas delas e recordar especialmente algumas as quais pareceram manifestar reflexões úteis. Espero conseguir incitar observações adicionais e diálogo, o que contribuirá para a criação de materiais os quais encontrarão seu caminho para as páginas de boletins futuros.

Declaração pessoal

No entanto, eu gostaria de, antes de tudo, fazer uma declaração pessoal para esclarecer meus interesses pessoais nesta área tão sensível e até polêmica. Uma declaração que provavelmente deveria ter sido feita na introdução do artigo original:

Minha principal motivação para pesquisar e escrever sobre o tema da sexualidade infantil refere-se a uma profunda preocupação ao ver jovens “salvos” desse tipo de confusão, ignorância e dor pelos quais passei enquanto criança e adulta em questões a respeito da sexualidade. Positivamente, quero fazer alguma contribuição para os jovens no descobrimento e exploração dos prazeres de sua própria sexualidade e de compartilhá-los com os outros com segurança, de forma acolhedora, sem culpa, vergonha ou medo, o que é tão comum. Quero que eles entendam que sexo não é só para o casamento. Eles precisam entender que “culto” ridículo da virgindade ou abstinência, o qual vem fazendo parte de nossas tradições culturais/religiosas durante séculos, e que está tendo um novo auge devido ao falso medo da AIDS, não é o que nosso Criador visava para eles, não importa como é defendido e promovido pela maioria dos “religiosos” in nossa sociedade, mesmo aqueles com uma convicção relativamente “liberal”. Eles e seus pais precisam entender que estas “crianças” SÃO sexuais e irão para o ATO sexual, não importam o quanto sejam pregadas ou reprimidas. Nossos jovens precisam entender que, com a educação, estimulo e apoio adequados vindos de seus pais e outros adultos responsáveis, eles poderão ter o controle de suas próprias vidas sexuais e vivê-las de forma segura, responsável e produtiva.

Quero que nossos jovens entendam que eles poderão ter relações sexuais saudáveis sem sentir que estas serão para sempre levarão necessariamente para o casamento em circunstâncias culturais modernas nas quais o casamento precoce não é muito prático para a maioria. Quero que eles entendam que em uma comunidade acolhedora de familiares e amigos, tais relacionamentos podem contribuir para a saúde emocional, social, física e espiritual e que, na verdade, não se pode ser saudável sem isso.

Quero também que os pais e adultos responsáveis aprendam a se comunicar abertamente com seus filhos sobre sexualidade sem o medo e a relutância que a maioria dos pais ainda sente. Isto contribuiria de forma significativa para atravessar o terrível abismo social entre adultos e crianças (veja meu trabalho original para discussão da origem de desenvolvimento desse abismo), visto que não há outra questão que separe completamente estes dois grupos.

Este trabalho sobre sexualidade na infância levanta a questão difícil e sensível do quão “prática” a instrução vinda dos pais/adultos deve ser na área da sexualidade. Diversos exemplos históricos e exemplos de outras culturas foram apresentados para indicar que a típica política “hands-off” (em português, “política de não-intervenção”) da Europa Ocidental/Inglesa/Americana nesta área não é a única abordagem em que existe uma forte evidência de que crianças que crescem sob abordagens não-ocidentais sobre educação sexual crescem perfeitamente saudáveis emocionalmente e MAIS saudáveis em termos de sua sexualidade.

Novamente, bem como no trabalho sobre sexualidade na infância, quero esclarecer que o objetivo deste trabalho e objetivo deste e de outros textos a respeito de sexualidade na infância, os quais surgirão futuramente, não é incentivar ou promover a atividade sexual de adultos ou crianças. O objetivo é incentivar considerações com mentalidade aberta a respeito da ampla variedade de questões relacionadas ao desenvolvimento, ensino necessidades da sexualidade na infância, os quais são negligenciados pela maioria em nossa sociedade, incluindo os chamados de especialistas em crianças.

Recentemente, encontrei um novo (para mim) livro com diversas análises úteis sobre pesquisas modernas e atitudes históricas a respeito da sexualidade na infância. Descreverei este livro mais detalhadamente no final deste artigo. Baseado nas linhas gerais discutidas neste livro, quero afirmar que nós, Cristãos Libertos, em relação a sexualidade das crianças, por propósitos educacionais ou de qualquer outra natureza, lamentamos e rejeitamos qualquer forma de suborno ou o uso de intimidação ou coerção, física ou psicológica, de um adulto em posição de influência, respeito ou autoridade. Nossa opinião é a de que tais métodos são usados e podem ser usados apenas por pessoas que pessoas que estejam buscando sua própria gratificação sexual em detrimento da criança ou no intuito de exercer controle/poder sobre a criança para o seu próprio bem ou por algum propósito derivado.

É claro que pode-se apontar aqui que tais diretrizes sejam simplesmente aquelas que devam existir em termos de atividade sexual com pessoas de QUALQUER idade. NINGUÉM, seja criança ou adulto, deve ser coagido de nenhuma das formas mencionadas acima.

Reconhecemos que a área de coerção PSICOLÓGICA, em particular, está aberta a interpretações que são firmemente contrários a qualquer forma de envolvimento físico de adultos com experiências sexuais de menores insistirão em traçar como possível a linha conservadora, isto é, proibindo e condenando QUALQUER envolvimento físico em qualquer nível e em qualquer tempo. Contudo, deve-se apontar que tais atitudes são aquelas as quais produziram o tipo de medo em pais, professores e outros adultos nos últimos 15 anos até mesmo em relação a ABRAÇAR crianças. Desta forma, esta perspectiva linha dura não funciona, na verdade, causa danos ao privar crianças de, inclusive, de um carinho CASUAL.

Em nossa sociedade, há muitos que não só desejam reprimir o desenvolvimento sexual da criança E de adultos, mas também querem sufocar a DISCUSSÃO de questões sobre sexualidade. Existem muitas razões interligadas para isso, incluindo seus próprios medos e culpa (querem impor as mesmas restrições draconianas naqueles em que eles sentem que devem impor a manter suas necessidades sexuais “sob controle”), ignorância (geralmente intencional) da normalidade da expressão sexual e sua própria herança perversa, atitudes de cunho moral prejudiciais promovidas pela tradição religiosa.

Ao lerem materiais como o meu, tais pessoas reagirão de forma violenta e atacarão tal pensamento com qualquer arma que tiverem em suas mãos, incluindo acusações de incentivo a atividades ilegais e imorais (em seu ponto de vista). Eles empurrarão todos os botões para que tantos não-pensadores da nossa sociedade reajam em seu zelo ignorante e imaturo para proteger as crianças "inocentes".

É errado diante de Deus nosso Criador abafar o debate e a discussão de questões tão importantes para o nosso bem-estar emocional e espiritual. Também LEGALMENTE errado, em nossa sociedade, abafar tal discussão. Continuaremos a publicar neste jornal, o qual acreditamos que fará uma pequena contribuição para um crescimento mais saudável das crianças, famílias e, finalmente, da sociedade.

Respostas para o artigo sobre Sexualidade na Infância

Uma pessoa compartilhou diversas questões conosco. A primeira era a de que os pais devem estar incentivados a ajudar seus filhos a se envolver em sexo “adequado à idade” com os colegas, para que eles possam reconhecer quando alguém está sugerindo atividades que vão além de sua compreensão ou capacidades físicas. Ela sugere que isso ajudaria às crianças a evitar o comportamento abusivo de crianças e adultos mais velhos. Concordo com esta sugestão. Conversamos estas e outras questões com uma terapeuta familiar que fez algumas recomendações para tal atividade à idade. Discutirei a respeito disso posteriormente.

Este autor também sugere que ao ensinar as crianças sobre a sexualidade, eles precisam ser ensinados sobre autorrespeito enquanto indivíduos, o que levo como significado na ajuda em direção a autoestima sexual e a autoestima em todos os níveis.

Esta mesma pessoa comenta sua preocupação de que escrever tão francamente sobre a sexualidade na infância, especialmente com relação ao possível envolvimento dos adultos na educação sexual “prática” das crianças, pode chamar a atenção para esses elementos de aplicação da lei, aparentemente, à espreita em torno do serviço postal e a Internet na esperança de pegar as pessoas que se atrevem a pensar pensamentos não aprovados pela chamada “maioria moral” que parece ditar nossas leis sexualmente repressivas. O autor considerou que eu deveria ter feito uma retratação perante ao artigo que “incluísse o aspecto teórico/acadêmico do trabalho, ou, pelo menos, dizer “enquanto não podemos aceitar a atividade sexual de adultos/crianças”. Ela salientou que tal afirmação ocorreu no final do trecho.

Respondo a essas questões de diversas formas: Em primeiro lugar, acredito que citar evidências “acadêmicas” para um número de considerações e conclusões neste artigo é uma evidência bastante clara de meu compromisso em confiar no trabalho sério e responsável dos pesquisadores nessa área. (O livro que mencionei acima é um ótimo representante desses pesquisadores responsáveis, embora não tenha sido utilizado no trabalho anterior, pois não o encontrei antes de finalizar a pesquisa. Espero utilizar seu material de forma significativa em trabalhos futuros.)

Em segundo lugar, percebo no uso do termo “teórico/acadêmico” o desejo de que eu sugira que estamos lidando apenas com ideias intelectuais e não sugerindo que as pessoas levem a sério suas implicações práticas. Tal abordagem poderia desviar as críticas, mas ao ser seguida, tornaria inútil tudo o que eu digo e, assim crianças e adultos têm sofrido o suficiente com “teorias”, conservadores e liberais, que nunca mudaram para melhor as circunstâncias sexuais de crianças no mundo real. De qualquer forma, aqueles que tendem a ver os “males” da sexualidade, e, em particular, o abuso sexual na infância sob cada arbusto, vão ver que não importa a natureza ou extensão de qualquer aviso! Acredito que as pessoas justas entenderão os cuidados e preocupações expressas em meus escritos sobre este assunto, além de que tenho uma profunda preocupação com a segurança das crianças e não estou sugerindo que alguém explore-os. Aquelas pessoas que se divertem perseguindo os outros por se atrever a ter pensamentos criativos não são justos e nenhuma renúncia nos protegerá deles.

Finalmente, uma vez que a “moral da polícia” não será adiada por renúncias, não terei meu direito de liberdade de expressão controlado por agenda DELES, o que eu acredito que seria o resultado por seguir as sugestões deste respondente. Minha integridade terá que ficar sobre a base do que e como eu escrevo, contra a qual não pode estar sempre certo (e eu espero estar disposto a ser corrigido), mas não vou pedir desculpas por arremessar algumas granadas no meio daqueles complacentes para tentar mudar o sistema sexualmente repressivo em que todos nós, crianças e adultos, vivemos.

Aqueles que escreveram respostas negativas, aparentemente, não leram o artigo com atenção ou leram com esse este preconceito de que eles simplesmente não entenderam o que eu estava dizendo (ou talvez eu devesse confessar a culpa por não estar me expressando de forma clara em alguns momentos). Um dos leitores disse: “Eu acho que está claro (o sublinhado é meu) que os jovens com idade inferior a 18 anos, e particularmente aqueles na puberdade precoce, estão mal preparados emocionalmente para lidar com toda a gama de experiências sexuais que seria mais tranquila para os adultos.” Em meu trabalho, afirmo especificamente que NÃO ESTÁ DE CLARO DE FORMA ALGUMA que os jovens sejam incapazes de lidar com as diversas atividades sexuais, embora isto seria pertinente não apenas para sua idade cronológica, mas para sua maturidade e seu nível de compreensão. Também contesto a idade legal para ter relações sexuais. Como indiquei, isso varia entre cinco anos de um estado para outro. Com que idade é correto?, poderão perguntar. A resposta seria: nenhuma. Somente aqueles que temem o sexo, bem como aqueles que deram origem ao conceito de idade legal, podem racionalizar tais limites.

Um posicionamento como este, defendido pelo respondente, deve ignorar a possibilidade de que as crianças de idade tenra possam ser incentivados por seus pais ao prazer sexual adequado e responsável, como é o caso em alguns lares. Eles podem ser orientados a satisfazer as necessidades normais que têm e examinarão se nós os incentivamos e ajudamos ou os deixamos perder-se na ignorância e culpa.

Este indivíduo diz que ficaria preocupado ao descobrir que seu filho de ano de idade estava se masturbando. Talvez tenhamos que estar contentes que este pai, parece, pelo menos, reconhecer a normalidade auto-prazer sexual. Sua declaração, no entanto, sugere que ele tem pouco conhecimento do que seus filhos estão fazendo. Este é exatamente um dos maiores problemas nas famílias - a falta de comunicação dos pais para seus filhos, o que resulta em nenhuma comunicação e na exploração da sexualidade às escondidas.

Este tipo de resposta me lembra a questão sugerida por alguns pesquisadores, de que a razão pela qual muitos adultos reagem negativamente por seus filhos serem sexuados, ou que eles se permitam ou até mesmo sejam incentivados em sua atividade sexual, é que os adultos são AMEAÇADOS por essa consciência e atividade sexual em crianças. Os adultos são inseguros sobre sua própria sexualidade e o conceito de seus filhos serem sexuados sugere que possa haver algo muito poderoso na vida dos filhos, algo que eles, os adultos, não conseguem controlar facilmente.

Um entrevistado sugeriu que os esforços por conservadores morais de hoje para conter explorações sexuais de crianças são motivados pelo desejo de manter o poder sobre a nossa juventude. Ele ainda indica o fato de que muitos pais aceitam estas noções sobre o fato de que “os pais estão se sentindo impotentes para enfrentar os desafios de criar seus filhos para que eles adiram àquilo que lhes dê algum poder em troca.” Ele continua, dizendo que, no lugar de tal negativismo, a mensagem bíblica de amar um ao outro como se ama a si mesmo nunca foi tão necessária.

A respeito dos argumentos sobre comunicar-se e educar nossos filhos, um leitor escreveu: “Pode ser uma das grandes ironias desta década que o fracasso da sociedade em tratar honestamente o sexo seja um fator principal na recente onda de acusações de abuso sexual para não mencionar a gravidez na adolescência. Se o sexo foi tratado como seu instinto básico do DESEJO PELA ALMA GÊMEA (o sublinhado é meu) e, portanto, as crianças receberam tanto teórica e, ao grau adequado de maturidade, educação prática, sugiro que a criança seja suficientemente educada e autoconfiante para não ter relações sexuais indesejadas. Será que a tia, tio ou até mesmo o padrasto estariam em uma posição para pedir um resposta sexual indesejada? A ameaça de “Se você disser que vou te machucar” perderia seu poder porque a criança se sentiria confortável em ir ao seus pais e discutir o assunto abertamente, sem constrangimento.” (Observe o ponto de vista semelhante do primeiro respondente acima).

Acredito que este leitor tenha percebido corretamente que o desejo sexual, mesmo nos jovens, é de fato uma “fome de alma gêmea”, isto é, evidência de nossa necessidade básica por ligação emocional e física ao longo da vida, algo que temos negado a nós mesmos e nossa crianças pelo efeito de grande empobrecimento quando jovens. Devido a essa negação, estamos mal preparados para uma união quando somos finalmente “permitidos” a fazê-lo como adultos.

Outro entrevistado respondeu o seguinte: "Duas das principais coisas que poderia ter feito [em sua experiência sexual juvenil] melhor seria uma melhor educação e nudez social. A nudez superaria esses medos corporais desnecessários e possibilitaria a comunicação. A educação teria ajudado a superar os erros da ignorância. O pior disso tudo é que vejo que os mesmos erros ainda estão sendo feitos. O aumento do número de divórcios e [a] percentagem de adultos solteiros mostram que algo está errado."

E COMO! As coisas não estão indo bem. A título pessoal, meus próprios problemas conjugais e divórcio foram parcialmente alimentados por problemas de ignorância sexual, ansiedade e incapacidade de se comunicar sobre estas questões. Adivinhe onde estes problemas começaram?

No material que mencionei acima, um livro tem sido extremamente útil em minha pesquisa mais recente. O título é Infância e Sexualidade: Uma abordagem cristã radical [Childhood and Sexuality: A Radical Christian Approach], por John L. Randall. Foi publicado pela Dorrance Publishing Company, em Pitsburgo (1992). Este livro tem ajudado a confirmar uma grande parte das conclusões de meu estudo anterior e expandiu consideravelmente meu conhecimento a respeito de outras pesquisas. O autor tem conhecimento do vasto acervo de pesquisas modernas, bem como materiais históricos relacionados com a sexualidade infantil. Neste artigo, tomo partido de suas conclusões sob vários aspectos. Recomendo este livre a quem estiver interessado em ir em busca deste assunto. O livro é tão valioso que quero fazer com que os leitores interessados estejam cientes de algumas das suas conclusões importantes. Em um boletim futuro ou em outro relatório especial, espero compartilhar este material mais extensivamente e interagir com ele.

Espero que este artigo seja útil para esclarecer nossa abordagem da área sobre sexualidade na infância e que as considerações compartilhadas por alguns de nossos leitores estimulem reflexões e comentários. Quero expressar meu agradecimento àqueles que dedicaram tempo para responder. Para aqueles que gostariam de entrar em contato comigo para outras observações e discussões, podem me escrever, Bill Paris, pelo endereço dos Cristãos Libertos ou pelo meu e-mail bill@libchrist.com.

Também gostaria de ter uma resposta dos pais que sentiram que sua abordagem à educação sexual pode ser útil para outras famílias, ou de adultos que refletiram sobre a boa educação sexual que receberam quando crianças. Agradeço aos leitores que recomendaram livros sobre essa questão (o livro referido acima foi muito recomendado). Sugestões de outros recursos publicados serão sempre bem-vindas.

 

Texto original: http://www.libchrist.com/bible/child2.html

 

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